ORGARAN (DANAPAROIDE SÓDICO) NA C.E.C. EM CASOS DE TROMBOCITOPENIA INDUZIDA PELA HEPARINA.

Decio O. Elias e Maria Helena L. Souza


ÍNDICE GERAL

  Introdução
  Principais Características do Orgaran
  Descrição do Danaparoide
  Mecanismo de Ação
  Efeitos Adversos
  Uso do Orgaran na C.E.C.
  Conclusões
  Referências Bibliográficas


INTRODUÇÃO

A heparina é largamente usada com a finalidade de prevenir a formação de trombos; pode, entretanto, predispor os indivíduos ao desenvolvimento de um quadro peculiar de trombocitopenia, denominado trombocitopenia induzida pela heparina (TIH). Há dois tipos de TIH. O tipo I é caracterizado pela redução do número de plaquetas circulantes, sem a presença de qualquer sintoma. O tipo II é caracterizado por trombocitopenia, tromboembolismo, formação de anticorpos anti-heparina/fator plaquetário 4 e normalização da contagem de plaquetas após a interrupção do uso da heparina. É a forma mais severa da TIH e pode ser fatal [1,2].

A incidência de TIH tipo II varia de 0,01 a 9%; é mais frequente nos pacientes que recebem a heparina não fracionada. Estes indivíduos podem ainda necessitar de anticoagulação. Quando um paciente em uso de heparina desenvolve TIH, um outro regime de anticoagulação deve ser usado, em substituição à heparina. Do mesmo modo, quando um indivíduo portador de TIH deve ser submetido à cirurgia cardíaca com circulação extracorpórea, um regime alternativo de anticoagulação deve estar disponível, para evitar o uso da heparina [3,4].

PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DO ORGARAN

Nome Comercial Orgaran
Nome Genérico danaparoide sódico
Fabricante Laboratório Organon (Netherland)
Indicações Profilaxia da trombose venosa profunda pós-operatória em pacientes submetidos à cirurgia do quadril eletiva.
Substituto da heparina sódica em regimes de anticoagulação.
Contraindicações Pacientes com diáteses hemorrágicas severas, hemofilia, púrpura trombocitopênica idiopática, estados hemorrágicos ativos, trombocitopenia tipo II associada à um teste positivo para anticorpos anti-plaquetas, indivíduos hipersensíveis à droga.
Mecanismo de Ação Inibição do Fator Xa e do Fator IIa da coagulação do sangue
Apresentação Ampolas de 0.6 ml contendo 750 unidades de anti-Fator Xa.
Administração Dose recomendada para pacientes de cirurgia do quadril é de 2 ampolas/dia (750 U/ampola), via subcutânea.

DESCRIÇÃO DO DANAPAROIDE

O danaparoide sódico é um heparinoide de baixo peso molecular. É um agente anti-trombótico que consiste da mistura de três componentes extraídos em conunto da mucosa intestinal porcina: sulfato de heparana (84%), sulfato de dermatana (12%) e sulfato de condroitina (4%). A maior presença é do sulfato de heparana, responsável pelas propriedades do danaparoide. O peso molecular da mistura daqueles três componentes é de aproximadamente 5.500 Daltons [5].

MECANISMO DE AÇÃO

O danaparoide sódico inibe a atividade dos fatores Xa e IIa (trombina) da coagulação do sangue e, desse modo previne a formação de fibrina. Este efeito inibitório é maior em relação ao fator Xa. A potência inibitória anti Xa é mais de vinte vêzes maior que a inibição anti-IIa [5].
O danaparoide sódico tem reduzida tendência a causar hemorragias e um mínimo efeito sobre o sistema fibrinolítico. O danaparoide tem um pequena proporção de reação cruzada com os anticorpos anti-heparina/plaquetas (0 a 20%; média de 10%). Isto representa uma significativa vantagem sobre as heparinas de baixo peso molecular, para a substituição da heparina não fracionada (heparina comum) nos pacientes com trombocitopenia induzida pela heparina imune-mediada (tipo II).
Em virtude da sua atividade predominante sobre o fator Xa, o danaparoide tem pouco efeito sobre os testes habituais da coagulação, como o PTTativado, o TP e os testes de fibrinólise.
O nível plasmático mais elevado do danaparoide é alcançado entre duas e cinco horas após a sua administração; a meia-vida da substância é de cerca de 24 horas.
A eficácia do danaparoide [5] na prevenção da trombose foi estudada em 196 pacientes divididos em dois grupos de pacientes: no grupo que recebeu o danaparoide houve 15% de trombose venosa profunda no pós-operatório, enquanto que no grupo que recebeu placebo, a incidência de trombose venosa profunda foi de 57% (p<0.001).

EFEITOS ADVERSOS

Os efeitos adversos do Orgaran foram estudados numa constelação de 2403 pacientes [5]. Demonstrou-se que os efeitos relacionados às hemorragias e transufsões de reposição foram semelhantes aos efeitos encontrados com os outros anticoagulantes, como o warfarin, heparina e heparina de baixo peso molecular. O quadro abaixo relaciona outros efeitos colaterais.

Efeitos Adversos Observados em Incidência Superior a 5 % dos Pacientes na Profilaxia da Trombose Venosa Profunda e Embolia Pulmonar

Eventos Adversos Orgaran (n=2383)
(%)
Warfarin (n=421)
(%)
Outros* (n=1163)
(%)
Placebo (n=276)
(%)
Dor local injeção
Dor
Febre
13.7
8.7
7.3
0.0
48.0
35.6
13.2
1.7
1.6
19.2
0.0
0.4
* - dextran, heparina, aspirina.

USO DO ORGARAN NA C.E.C.

A experiência com o Orgaran como agente da anticoagulação para a circulação extracorpórea, em substituição à heparina ainda é reduzida. Em quatro casos [6] em que a indicação precípua foi a história de trombocitopenia induzida pela heparina tipo II, considerados inadequados para o uso de heparina.
Os pacientes receberam 8.750 unidades de Orgaran endovenosa, após a esternotomia em preparação para a entrada em perfusão. Ao mesmo tempo, um bolus de 7.500 unidades de Orgaran foi adicionado ao perfusato. As doses do Orgaran foram baseadas no peso dos pacientes.
A perfusão ocorreru sem incidentes nos quatro pacientes, embora em um caso tenha surgido um depósito de fibrina no reservatório venoso do oxigenador. Três pacientes foram submetidos à revascularização do miocárdio e o quarto paciente era uma re-operação para revascularização.
Os níveis de anti-Xa foram monitorizados; o TCA e o PTTativado mostraram valores muito reduzidos em comparação aos valores habitualmente encontrados durante a heparinização de rotina.
Como não há antídoto para o danaparoide, a conduta é aguardar a eliminação natural do fármaco. O sangramento pós-operatório foi elevado em dois pacientes (>1300 ml), moderado em um (800 ml) e mínimo no outro paciente (300 ml). Gitlin e cols [7] estudaram a monitorização do efeito anticoagulante do danaparoide em pacientes submetidos à circulação extracorpórea. Nos estudos "in vitro" o TCA com o celite e o caolim apresentaram uma relação linear com concentrações crescentes de danaparoide. A adição de aprotinina não alterou a relação linear da resposta. Entretanto, nos testes realizados "in vivo" o TCA e o tempo parcial de tromboplastina ativado foram insensívies às alterações da concentração plasmática do danaparoide sódico durante a perfusão. Apenas a determinação do fator anti-Xa foi adequada para monitorizar os níveis do danaparoide sódico durante a operação.

CONCLUSÕES

A pequena experiência inicial com o danaparoide sódico na anticoagulação dos pacientes portadores de trombocitopenia induzida pela heparina tipo II, para a circulação extracorpórea é favorável. É necessário uma maior quantidade de casos para que a eficácia do produto seja avaliada, para a substituição da heparina, quando necessário.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1. Godal HC. Heparin Induced Thrombocytopenia. In: Lane DA, Lindahl U. Heparin. Chemical and Biological Properties, Clinical Aplications. CRC Press, Boca Raton, 1989.

2. Alving BM; Krishnamurti C. Recognition and management of heparin-induced thrombocytopenia (HIT) and thrombosis. Semin thromb Hemost 23, 569-74, 1997.

3. Ganzer D; Eichler P; Greinacher A; Mayer G. Prevention of thromboembolism as a cause of thromboembolic complications. A study of the incidence of heparin-induced thrombocytopenia type II. Z Orthop Ihre Grenzgeb, 135, 543-9, 1997.

4. Gravlee GP. Anticoagulation for Cardiopulmonary Bypass. In Gravlee GP; Davis RF; Utley JR. Cardiopulmonary Bypass. Principles and Practice. Williams & Wilkins, Baltimore, 1993.

5. Orgaran - danaparoide sodium. Folheto de informações do laboratório Organon.

6. Case Presentation - Perfusion Pages:
http://eja.anes.hscsyr.edu/perf/case_reports/cases/-1.370222961E+9.case.

7. Gitlin SD; Schmaier AH; Yann C; Deeb GM. Intraoperative monitoring of danaparoide sodium anticoagulation during cardiovascular operations. J VascSurg 27, 568-76, 1998.


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