O PERFUSIONISTA NA AMÉRICA LATINA

Maria Helena L. Souza*

*Perfusionista
Membro Titular da SBCEC
Presidente do Conselho Latinoamericano de Perfusão
Publicado no Boletim Informativo da SBCEC - Circulando - Ano V N0 13, 2002.

A criação do Título de Especialista pela nossa Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea, representou um dos primeiros passos em direção ao reconhecimento do perfusionista como um profissional que exerce uma atividade específica e diferenciada, para a qual determinados pré-requisitos acadêmicos e de treinamento prático são indispensáveis. A posse do referido título significa que o seu portador demonstrou perante seus pares, representados pela SBCEC, ter cumprido um ciclo mínimo de estudos e de treinamento prático, suficientes para habilitá-lo ao exercício daquela atividade.

As discussões que precederam a regulamentação do título de especialista, à semelhança do que ocorreu em todos os países em que o tema foi abordado, levaram à conclusão, natural e inquestionável, de que o pré-requisito fundamental para habilitação ao treinamento prático em circulação extracorpórea é a conclusão de um ciclo de estudos acadêmicos equivalente ao terceiro gráu, em uma das áreas das ciências da saúde.

A experiência de nosso país, pioneira na América Latina, em termos de organização de uma sociedade nacional e da tentativa de estabelecer critérios para a adequada formação dos perfusionistas, atraiu à nossa SBCEC numerosos colegas de outros países latinos, com aspirações semelhantes. Sem nenhuma surpresa constatamos que, respeitadas pequenas particularidades regionais, as dificuldades e os desafios eram muito semelhantes.

Em nosso país, apesar do grande progresso da tecnologia e da consolidação da profissão, alguns profissionais ainda buscam uma identidade trabalhista, sindical e salarial, como se fossem as mais importantes para o reconhecimento da sua atividade ou, mais corretamente, da sua profissão. Esta já desfruta do reconhecimento desejado. Entretanto, o cadastramento dessa profissão pelas autoridades do Ministério do Trabalho, embora seja um anseio coletivo, é de difícil obtenção, para uma profissão que conta com pouco mais de 500 membros, em todo o território nacional.

Embora a profissionalização tenha ocorrido, ainda nos falta a identidade. Isso ocorre com muitos, mas é percebido por poucos. Nós nos acostumamos a nos identificar como enfermeiros, biólogos, biomédicos, fisioterapeutas, para citar apenas alguns exemplos, mas não nos identificamos como Perfusionistas que é, claro, é o que verdadeiramente somos. Alguns chegam um pouco mais perto e assumem a duplicidade profissional, identicando-se, por exemplo, como biólogo-perfusionista. Desse modo, a consolidação da profissionalização, depende muito mais da nossa identidade e do nosso comportamento, junto à coletividade a que pertencemos.

Com o objetivo de tratar das questões relativas à profissão de perfusionista, aproveitando as experiências adquiridas e a unificação de esforços, alguns perfusionistas de diversos países da América Latina, reunidos em um dos congressos da nossa SBCEC, decidiram criar um grupo de trabalho que, ao longo do tempo, constituiu-se em uma organização denominada Conselho Latinoamericano de Perfusão (CLAP).

Os principais objetivos do CLAP são o de promover o Congresso Latinoamericano de Tecnologia Extracorpórea, a cada 3 anos e editar a Revista Latinoamericana de Tecnologia Extracorpórea, a cada trimestre, como veículos de intercâmbio científico e de educação continuada à disposição da comunidade latinoamericana de Perfusionistas.

Na esfera de atribuições relativas à formação profissional, o CLAP deverá nos próximos anos:

1. Discutir, analisar, aprovar e recomendar um currículum mínimo para a formação de perfusionistas, inclusive os pré-requisitos.
2. Discutir, analisar, aprovar e recomendar um conjunto de padrões e "standards" mínimos adequados à prática da circulação extracorpórea em todas as suas modalidades.
3. Discutir, analisar, aprovar e recomendar um sistema voluntário de certificação dos perfusionistas, à semelhança dos "boards" existentes nos países da América do Norte e da Europa, com o mesmo objetivo de assegurar um padrão de qualidade para o desempenho profissional.

Para a elaboração dessas tarefas, o CLAP deverá contar com o seu Conselho Administrativo e com a participação de profissionais com experiência nas respectivas áreas. Assim, os organizadores e coordenadores de cursos de formação de perfusionistas serão convidados a participar da elaboração do currículum mínimo. Perfusionistas com experiência reconhecida, serão convidados a participar da elaboração dos padrões mínimos aceitáveis para a prática da perfusão. Do mesmo modo, a experiência dos "boards" norte-americano e europeu e a experiência com a outorga dos títulos de especialista, servirão de base para a criação do sistema latinoamericano de certificação.

Esperamos, para todas essas atividades do CLAP, uma grande cooperação e participação dos perfusionistas brasileiros, através da nossa SBCEC.

A liderança latinoamericana a que temos direito, pela antiguidade, pela maioridade e pelos números que apresentamos, precisa ser materializada e consolidada em uma liderança de fato. Para essa, precisamos abraçar a nossa sociedade como o nosso órgão representativo, participar das suas atividades, contribuir para a nossa coletividade e assumir a nossa identidade.

Só depende de nós.


Editor - Maria Helena L. Souza