A SOCIEDADE REPRESENTATIVA DOS PERFUSIONISTAS.
Caros colegas:
No editorial do número 3 do volume XI (Julho/Setembro 2004) da Revista Latinoamericana de Tecnologia Extracorpórea, tive a grata oportunidade de tecer alguns comentários sobre as sociedades de circulação extracorpórea e seu papel nos dias atuais, em contraposição ao que conhecemos do passado. Embora o texto seja em sua grande parte genérico, porque trata da América Latina, é indisfarçável que a mesma situação existe no Brasil e, facilmente se pode identificar, a nossa coletividade e a nossa sociedade foram tomadas como o exemplo, simplesmente porque as conhecemos mais de perto e melhor.
Nas últimas décadas temos observado grandes alterações nas relações entre as sociedades profissionais, no nosso caso, as sociedades de perfusão e os seus membros. Isso não é um acontecimento fortuito, gerado pela insatisfação de pequenos grupos com os rumos da sua sociedade representativa. Na verdade, trata-se de um fenômeno mais amplo, que teve início em torno da década de 80 (século XX), nos países ditos do primeiro mundo, principalmente da Europa e nos Estados Unidos.
Na nossa América Latina (e, lógicamente, no Brasil), um fenômeno semelhante ocorre nos dias atuais. A sua principal característica é um relaxamento natural das relações entre as sociedades e os seus membros, que progride para um distanciamento contínuo e crescente. A sociedade deixa de ser representativa dos seus membros e estes, por sua vez, deixam de considerar-se representados pela sua sociedade. Os vínculos entre sociedade e membros tornam-se frouxos, quase virtuais. O que ocorre com um deixa de ser relevante para o outro. A raiz do problema parece residir numa frustração recíproca de expectativas mal formuladas ou mal compreendidas. Os perfusionistas esperam que a sociedade resolva os seus problemas e as suas dificuldades e, ao mesmo tempo, a sociedade espera a adesão incondicional dos perfusionistas às suas iniciativas e decisões, nem sempre oportunas ou mais imediatamente voltadas para o interesse coletivo.
Ambos, perfusionistas e sociedades, parecem não perceber que os tempos mudam rapidamente. As necessidades de hoje estão distantes da realidade de ontem. Os perfusionistas, salvo honrosas exceções, não perceberam que a sociedade não é um ente real, criado para dar à luz soluções para todos os problemas da profissão ou dos profissionais. A sociedade somos nós. E antes de perguntar o que a sociedade pode fazer em nosso benefício, precisamos nos perguntar o que podemos fazer em benefício da sociedade. Ou da nossa coletividade. Isto é histórico; faz parte de infindáveis discursos e retrata numerosos comportamentos.
Sociedade e coletividade, na verdade, são exatamente a mesma coisa. Uma (a sociedade) representa a outra (a coletividade). A sociedade é constituída pelos membros da coletividade que se dispõem a doar um pouco do seu tempo e do seu trabalho em prol do bem comum. Apenas isso. Se muitos membros se dispuserem a doar algum trabalho em favor da coletividade a sociedade será forte e representativa. Se poucos membros se dispuserem a trabalhar pelo bem comum, a sociedade será fraca e a profissão não terá representatividade. Poucas coisas podem ser mais simples e mais cristalinas.
As relações profissionais dos dias atuais são muito dinâmicas devido à extrema facilidade das comunicações. O advento da Internet não apenas revolucionou, mas também democratizou as relações dos indivíduos entre sí e com as suas entidades representativas. Uma mensagem eletrônica pode ser enviada e alcançar qualquer ponto do planeta em alguns segundos. Essa realidade acaba com as dificuldades que as nossas dimensões continentais impunham ao nosso desenvolvimento, até anos atrás. E nós ainda não nos aproveitamos desses progressos.
Estamos diante de uma nova realidade. Estamos vivendo novos tempos e precisamos perceber isso. Na realidade, precisamos nos aproveitar disso. Precisamos de muitos colegas dispostos a doar um pouco do seu tempo e do seu trabalho para a nossa coletividade. Os frutos, ou a sua falta, serão sempre repartidos entre todos. Precisamos de uma sociedade ágil, dinâmica, forte e, portanto, representativa. E, apesar do apelo que o exercício de uma atividade comum pode ter, as relações modernas são pautadas, principalmente, pela equação que avalia a razão: custo /benefício. É preciso que a sociedade seja do interesse dos perfusionistas para que esses se aproximem dela e a tornem a sua representante "de fato" e não apenas "de direito". É necessário que haja "valor agregado". Que valor(es) agregado(s) pode ter uma sociedade de circulação extracorpórea ? - Muito(s)!.
O primeiro e mais importante valor a ser agregado é tornar a sociedade verdadeiramente representativa dos perfusionistas. Isso requer uma re-engenharia da sociedade. A sociedade pode (e deve) abrigar todos os profissionais interessados em circulação extracorpórea. Contudo, apenas os perfusionistas devem ter o privilégio de discutir e votar as decisões que afetam a sua profissão. Os cirurgiões, anestesistas, intensivistas, cardiologistas, hematologistas e outros especialistas devem constituir um quadro de consultores de alto nível. Mas não se deve esperar desses profissionais a solução dos problemas que dizem respeito aos perfusionistas. Nós não temos o direito de pedir tanto desses profissionais que também lutam para vencer as dificuldades inerentes às suas respectivas atividades. Muito menos devemos pedir que votem em nossas assembléias, para decidir sobre temas que, muitas vezes, nem tiveram tempo ou interesse de avaliar com a necessária profundidade e a indispensável isenção.
A sociedade de circulação extracorpórea deve ter, além da diretoria que os estatutos preceituam, diversos conselhos capazes de discutir, sugerir e administrar a concessão dos títulos de especialista, a produção de material educacional, a organização de cursos, simpósios e os congressos, as relações externas com a mídia, as relações públicas, as relações com as profissões interligadas (especialmente a cirurgia cardíaca, a anestesia cardiovascular, cardiologia, terapia intensiva, fisioterapia, etc.), as relações internacionais (com sociedades congêneres) para troca de informações e de material educacional, gestão do website e, muito importante, as relações e a organização profissional, que cuidará dos assuntos ligados à profissionalização. A profissão precisa ser conhecida pelo público a que serve, como ocorre em todo o mundo. Todas as pessoas sabem o que é uma ponte de safena, uma cirurgia de coração ou um transplante cardíaco. Todas conhecem o anestesista, o enfermeiro e o fisioterapeuta além é claro, dos cirurgiões e cardiologistas. Mas, praticamente, nenhuma delas sabe quem é um perfusionista ou o que faz um perfusionista.
Um perfusionista deve ser considerado membro da sua sociedade quando estiver em dia com as obrigações que assumiu ao solicitar o seu registro; isto quase sempre corresponde ao pagamento da anuidade. Quando estiver em débito, deve ficar em um quadro à parte e deverá ter os mesmos direitos que tem os perfusionistas que não são membros da sociedade. Os perfusionistas "em dia" com a sociedade devem ter muitos benefícios - compra de livros, CDs educativos, material didático em geral, inscrições nos congressos, cursos, simpósios e outras atividades frequentes com descontos generosos, enquanto os perfusionistas que não são membros da sociedade ou não estão quites com as anuidades devem pagar os valores plenos. Nisso consiste o valor agregado. É preciso ser vantajoso pertencer à sociedade. Os custos atuais de produção de material educativo e eletrônico são extremamente baixos e a Internet deve ser o veículo preferencial para a distribuição de material educacional, de reciclagem, etc..., sempre com vantagens para os membros quites com a anuidade.
O site da sociedade deve ser dinâmico e conter grande quantidade de material educacional, cursos, trabalhos, etc... O acesso à essa sessão do site deve ser restrito aos membros com as anuidades pagas e atualizadas. Os demais devem pagar pelo acesso, valores mais elevados. O site também deve ser administrado como um valor agregado de extrema importância.
Muitas e muitas idéias e sugestões podem ser usadas para acrescentar (agregar) valor à associação profissional. As reuniões das diferentes comissões e até da diretoria podem ser feitas pela Internet, através do website, exceto em ocasiões especiais. Enfim, uma sociedade moderna e representativa pode ser o elemento que falta para impulsionar de vez a nossa coletividade em direção às aspirações que temos há longos anos.
Isso, entretanto, deverá ser fruto do esforço daqueles que desejam um futuro melhor para a sua profissão e, com essa crença, se disponham a doar algumas horas de trabalho para o bem da coletividade a que pertence. Enquanto nós ficarmos simplesmente esperando, não iremos a lugar algum. Veremos o tempo passar, novas gerações chegarem e não teremos siquer bons exemplos para deixar como herança. Enfim, uma coletividade apenas se reune, organiza, dirige e progride quando está pronta para isso. Eu acredito que nós já estamos. E você ?
| * Maria Helena L. Souza |
| Membro Titular da Sociedade Brasileira de Circulação Extracorpórea
| | Presidente do Conselho Latinoamericano de Perfusão |
| Editora da Revista Latinoamericana de Tecnologia Extracorpórea |
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