PROTEÇÃO DO MIOCÁRDIO
A proteção do miocárdio consiste de
um conjunto de métodos e técnicas com o objetivo de
evitar o comprometimento ou o agravamento da função contrátil do
coração, durante a cirurgia cardíaca. Os principais
métodos disponíveis para a proteção do miocárdio
estão relacionados na tabela abaixo.
Devemos observar que a perfusão contínua sem clampeamento aórtico, a fibrilação ventricular com perfusão contínua e o clampeamento intermitente, na verdade, são métodos que procuram evitar a produção de injúria miocárdica. Ao contrário, a hipotermia seletiva e as diversas modalidades de cardioplegia constituem isoladamente ou em associação, um conjunto de métodos que procuram proteger o miocárdio contra a injúria capaz de ser produzida pelo clampeamento aórtico e consequente isquemia miocárdica. Sob o ponto de vista estrito, apenas os últimos métodos (hipotermia seletiva e cardioplegia) deveriam ser considerados como métodos de proteção do miocárdio.
| PROTEÇÃO
DO MIOCÁRDIO |
- Perfusão contínua sem
clampeamento aórtico
|
- Fibrilação ventricular
com perfusão contínua
|
- Clampeamento aórtico
intermitente
|
- Hipotermia miocárdica
tópica ou seletiva
|
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Os dois primeiros
métodos (perfusão contínua e fibrilação ventricular)
consistem em realizar as operações sem o clampeamento
da aorta. Isto evitaria a indução de isquemia e, em
consequência, não haveria injúria do miocárdio. Em
geral, estes métodos são associados à hipotermia
sistêmica. A fibrilação ventricular, entretanto, pode
comprometer a irrigação do subendocárdio; foi
utilizada com sucesso em operações de curta duração,
em pacientes sem grande comprometimento funcional do
miocárdio. Na atualidade, a fibrilação ventricular
ressurge como método coadjuvante, nas técnicas
denominadas de "cirurgia minimamente invasiva",
em que as vias de acesso ao coração expõem minimamente
as estruturas para a realização das operações.
O clampeamento aórtico intermitente
procura restringir a injúria miocárdica às
alterações bioquímicas reversíveis que ocorrem nos
primeiros 15 minutos da isquemia. A reperfusão,
promovida por interrupção do clampeamento, reverte
aquelas alterações. Como na maioria dos casos a
injúria não é cumulativa, alguns períodos de 15
minutos de isquemia alternados por 3 a 5 minutos de
reperfusão, podem ser bem tolerados pelo miocárdio.
Essa técnica produz os melhores resultados no miocárdio
isquêmico, para a revascularização cirúrgica; nos
miocárdios hipertróficos e/ou dilatados, a resposta é
menos consistente e pode ocorrer injúria cumulativa, com
comprometimento funcional de diversos graus.
A hipotermia tópica e a cardioplegia
são métodos que oferecem proteção contra a injúria
isquêmica produzida pelo clampeamento aórtico.
A hipotermia tópica visa preservar o
miocárdio pela interrupção da atividade
eletromecânica do coração e pela redução do consumo
metabólico de oxigênio à baixas temperaturas.
A cardioplegia produz a interrupção
rápida da atividade eletromecânica por ação de
agentes químicos despolarizantes (potássio e/ou
magnésio), que resulta em completo relaxamento
diastólico e manutenção das reservas energéticas
celulares do miocárdio.
CARDIOPLEGIA
A cardioplegia, nas suas diversas
formas, é o método mais amplamente utilizado na
proteção do miocárdio, especialmente na cirurgia
pediátrica.
A Cardioplegia consiste na perfusão da
circulação coronariana por soluções contendo
concentrações elevadas de potássio e/ou magnésio,
capazes de parar o coração rapidamente, interrompendo
as atividades mecânica e elétrica, sem desgaste da
energia armazenada no miocárdio.
Há duas modalidades de soluções
cardioplégicas, conforme o veículo que transporta os
agentes químicos (potássio/magnésio) para a produção
da assistolia e relaxamento do miocárdio.
O potássio pode ser diluido em
soluções cristaloides, como a solução de Ringer,
constituindo a Cardioplegia Cristaloide. A
cardioplegia cristaloide é sempre hipotérmica.
Alternativamente, o potássio e outros componentes podem
ser diluidos no perfusato do oxigenador, que oferece
oxigênio e os demais metabolitos celulares. É a Cardioplegia
Sanguínea. Esta última pode ser hipotérmica,
normotérmica ou isotérmica, quando realizada à
temperatura do perfusato, sem preocupação com o
resfriamento ou o aquecimento da solução.
A cardioplegia pode ser administrada em
doses periódicas (cardioplegia intermitente) ou pode ser
administrada sem interrupção (cardioplegia contínua).
- A
cardioplegia cristaloide é sempre hipotérmica e
intermitente.
- A cardioplegia sanguínea hipotérmica é
intermitente ou contínua.
- A cardioplegia normotérmica (isotérmica) é sempre contínua ou, no máximo com pequenas interrupções de cerca de 3 minutos, quando absolutamente indispensável.
|
A cardioplegia pode ser
administrada pela raiz da aorta ou por introdução
direta nos óstios coronarianos e o fluxo da solução
segue as vias normais da circulação coronariana; é a
via anterógrada. Alternativamente, a solução
cardioplégica pode ser infundida através o seio
coronariano no átrio direito e seguir a circulação
coronariana no sentido inverso; é a via retrógrada.
Em determinadas circunstâncias a combinação das duas
vias de introdução das soluções cardioplégicas pode
ser utilizada.
| VIAS DE ADMINISTRAÇÃO DA
CARDIOPLEGIA
|
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Retrógrada
|
Combinada
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PROTEÇÃO
DO MIOCÁRDIO INFANTIL
A introdução da cardioplegia na
proteção do miocárdio na cirurgia de adultos resultou
em extraordinária redução da ocorrência e da
gravidade do baixo débito cardíaco. A experiência tem
demonstrado, contudo, que o grande impacto produzido na
proteção do miocárdio maduro ou adulto, não se
repetiu tão marcadamente na cirurgia cardiaca infantil,
especialmente nos neonatos e pequenos lactentes.
O miocárdio dos neonatos e lactentes
tem características próprias, estruturais e funcionais,
que os diferenciam do miocárdio dos adultos. Além
disso, o miocárdio nas cardiopatias congênitas é
hipertrofiado, na quase totalidade dos casos e, em
qualquer circunstância, o miocárdio hipertrófico é
mais difícil de proteger que o miocárdio normal ou o
miocárdio isquêmico.
CONSUMO DE OXIGÊNIO
Os métodos de proteção do miocárdio
procuram manter um balanço adequado entre a oferta de
oxigênio e as necessidades de consumo, para
preservação da viabilidade celular e para o
armazenamento da energia necessária à atividade
eletromecânica. O novo patamar do balanço é obtido
pela redução das necessidades (ou do consumo) de
oxigênio e pela manutenção de uma oferta compatível
com as novas necessidades.
O consumo de oxigênio pelo miocárdio
do ventrículo esquerdo varia nas diferentes situações,
com o coração batendo à temperatura normal, com o
coração parado e sem atividade mecânica e com o
coração parado, à baixas temperaturas. Os principais
valores do consumo são apresentado no quadro abaixo e
aplicam-se indiferentemente ao miocárdio adulto e ao
miocárdio infantil.
CONSUMO DE OXIGÊNIO PELO MIOCÁRDIO
(VE)
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- Batendo a 370C
- Parado a 370C
- Parado a 220C
- Parado a 150C
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- 9 ml/100 g/min.
- 1 ml/100 g/min.
- 0,5 ml/100 g/min.
- 0,3 ml/100 g/min.
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O miocárdio do
ventrículo esquerdo batendo à temperatura de 370C
tem um consumo de oxigênio de 9 ml/100 g/min.. Quando
relaxado e sem atividade eletromecânica, à mesma
temperatura de 370C, o consumo do miocárdio
do VE cái para 1 ml/100 g/min.. Estes dados demonstram
que 80 a 85% da energia consumida pelo miocárdio
corresponde ao desempenho da atividade contrátil. Quando
resfriamos o miocárdio relaxado até os 220C,
o consumo se reduz para 0,5 ml//100 g/min.; temperaturas
mais baixas não reduzem significativamente o consumo e
não oferecem benefícios adicionais.
O grande fator de consumo de oxigênio
é a atividade eletromecânica do miocárdio; a simples
parada do coração reduz o gasto de oxigênio
consideravelmente (± 85%). Isto demonstra que uma boa proteção do
miocárdio pode ser obtida sem a adição de hipotermia.
Esta é um coadjuvante de menor magnitude e atua como um
complemento protetor, ao manter reduzidas as necessidades
de oxigênio. A hipotermia, entretanto, também produz a
parada eletromecânica do coração.
Os dados analisados mostram que o
consumo de oxigênio do miocárdio parado à temperaturas
entre 15 e 22oC é cerca de 30 vêzes menor que o consumo
do miocárdio batendo à temperatura de 37oC (9/0,3=30).
CARACTERÍSTICAS DO
MIOCÁRDIO INFANTIL
À semelhança de diversos outros
órgãos, o miocárdio dos neonatos não tem as
características definitivas, encontradas nos adultos.
Ele difere consideravelmente na estrutura, função,
metabolismo, na resposta aos agentes
inotrópicos e na tolerância à
isquemia.
Com relação à estrutura, o
sincício miocárdico dos neonatos é menos organizado
que o adulto, na distribuição e na direção das suas
células; além disso, o número de células é menor, o
tecido conjuntivo é menos abundante e a rede capilar tem
maior permeabilidade para as grandes moléculas.
Com relação à função,
sabemos que o miocárdio neonatal trabalha muito próximo
da sua performance máxima. A reserva fisiológica é
muito menor e um stress de pequena magnitude, com
facilidade pode levar à falência miocárdica. A reserva
sistólica e a reserva diastólica são
significativamente menores. Isto explica, por exemplo,
porque patologias pulmonares como peneumonias ou
broncopneumonias, facilmente levam um bebê à
insuficiência cardíaca.
A complacência dos ventrículos do
neonato é muito reduzida, o que explica sua resposta
pobre à manipulação do princípio de Starling, quando
procuramos elevar a volemia para obter aumento do débito
cardíaco.
O metabolismo do miocárdio
neonatal produz ATP predominantemente pela via
glicolítica, enquanto o miocárdio adulto utiliza a
oxidação de ácidos graxos. Existe uma grande
dependência de carbohidratos para a produção de
energia; para esse suprimento, o miocárdio neonatal tem
abundantes reservas de glicogênio. Provavelmente, em
função da maior dependência glicolítica, o miocárdio
neonatal tolera melhor a isquemia que o miocárdio
adulto.
O miocárdio neonatal trabalha sob
estimulação adrenérgica de maior intensidade e sua
resposta às catecolaminas exógenas é menor que a do
miocárdio adulto. Dopamina e dobutamina não tem, no
neonato, efeitos tão expressivos sobre a contratilidade
como no adulto. Ainda assim, para obter efeitos
semelhantes, a dose requerida pelos neonatos é,
proporcionalmente mais elevada. A melhor resposta
inotrópica em geral é observada com a isoprenalina ou
isuprel que, provavelmente, se deve mais ao aumento da
frequência cardíaca que da contratilidade propriamente
dita.
A insuficiência cardíaca severa e a
hipóxia de longa duração, frequentemente observados
nas cardiopatias congênitas, tornam o miocárdio
neonatal e do lactente mais sensíveis à injúria,
provavelmente pela maior depleção de substrato para a
produção de ATP e liberação de energia.
O miocárdio mantém as
características da imaturidade desde o nascimento até
próximo dos quatro a seis meses de vida. Ao final do
primeiro semestre os sinais de amadurecimento se acentuam
rapidamente até os 2 a 3 anos de idade, quando a
maturação praticamente se completa e o miocárdio
assume todas as características da fase madura,
próprias do miocárdio adulto.
| CARACTERÍSTICAS
DO MIOCÁRDIO INFANTIL |
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Imaturo |
|
|
Em
desenvolvimento |
|
|
Maturação
completa |
INJÚRIA
MIOCÁRDICA DA PERFUSÃO
A experiência tem demonstrado que uma
parte da injúria do miocárdio nos neonatos e pequenos
lactentes pode ser produzida pela perfusão, antes do
clampeamento aórtico.
Nas crianças com peso corporal de 3 a
5 Kg., a volemia é muito pequena, de 85 ml de sangue por
cada Kg. de peso.
A entrada em perfusão pode produzir
grandes variações da volemia, por sequestro de sangue
do paciente no reservatório do oxigenador. Isto, em
geral, produz a parada cardiaca ou a fibrilação
ventricular. A hipotensão brusca compromete a
irrigação do subendocárdio. Grandes diferenças de
temperatura entre o perfusato e o paciente, no início da
perfusão ou do resfriamento, podem produzir alterações
semelhantes. O miocárdio dos neonatos tem baixa
complacência ventricular; a perfusão subendocárdica do
coração em fibrilação é reduzida, enquanto o consumo
de oxigênio é elevado.
Rebeyka e Williams descreveram a
contratura miocárdica produzida pelo resfriamento
rápido do miocárdio em neonatos, que causa brusca
transferência de cálcio para o retículo do
sarcoplasma; o miocárdio torna-se incapaz de relaxar em
resposta à cardioplegia. Nesses casos a mortalidade e a
incidência de baixo débito cardíaco são muito
elevadas. A adoção da indução morna da cardioplegia,
para evitar aquele fenômeno, reduziu substancialmente a
mortalidade da cirurgia nos neonatos, na experiência dos
autores.
A maioria dos neonatos tem baixa
reserva de bases, produzidas pela insuficiência cardiaca
severa ou pela cianose persistente; são, na realidade,
acidóticos crônicos. Por esta razão, devemos tamponar
o perfusato cuidadosamente, antes do início da
perfusão. A acidose é detrimental ao miocárdio
neonatal e pode adicionar injúria, antes do pinçamento
da aorta.
Os cuidados com a reperfusão também
são importantes, para os neonatos. A pressão da
reperfusão deve ser baixa, da ordem de 20 a 30 mmHg e o
pH deve ser alcalino. Quando estamos voltando de uma
parada circulatória ou de um período de baixo fluxo de
perfusão, pode haver grande acidose do perfusato, que
deve ser corrigida antes do desclampeamento da aorta.
CARACTERÍSTICAS DO MIOCÁRDIO ADULTO
Para efeitos de proteção do miocárdio adulto devemos considerar a resposta individualizada aos métodos de proteção do miocárdio isquêmico, do miocárdio hipertrofiado e do miocárdio em falência aguda e severa. Cada uma dessas situações será revista nos métodos de proteção do miocárdio.
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