CARDIOPLEGIA SANGUÍNEA
Consiste na mistura de uma solução
contendo Potássio com o perfusato do oxigenador, que
resulta numa solução final diluida, com pH e
osmolaridade ajustados, para infusão na circulação
coronariana.
Existem diversas variações da
cardioplegia sanguínea, relacionadas à temperatura, à
via de introdução e à composição química.
VARIEDADES
DE CARDIOPLEGIA SANGUÍNEA
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TEMPERATURA
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VIA DE ADMINISTRAÇÃO
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Normotérmica
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Isotérmica
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A cardioplegia
sanguínea mais usada nos neonatos e lactentes é
hipotérmica, em que a hipotermia age como um complemento
da proteção. É administrada em doses intervaladas, a
cada 15 ou 20 minutos. É a cardioplegia sanguínea
intermitente. Complementamos com irrigação do
miocárdio com soro gelado (hipotermia tópica).
Alternativamente, a cardioplegia
sanguínea pode ser administrada à temperatura normal
(cardioplegia morna) ou à temperatura em que se encontra
o perfusato. Nestes casos a administração deve ser
contínua (cardioplegia sanguínea contínua).
Não é um bom método para neonatos e pequenos
lactentes, pelas dificuldades técnicas que envolve. Pode
ser usado para os adolescentes, quando a cirurgia é
feita em normotermia. Entretanto, é usada nos neonatos
apenas para a indução do relaxamento diastólico, sendo
a manutenção feita com soluções hipotérmicas. A
reperfusão nesses casos também é feita com a solução
morna.
A via de administração habitualmente
usada para as crianças é a via anterógrada,
mediante a introdução de um catéter ou pequena
cânula, na raiz da aorta, para a infusão da solução.
A administração pela via retrógrada
é possível pela introdução de uma cânula especial
com balonete, no orifício do seio coronário. Essa via
apenas é usada em neonatos como complemento à via
retrógada (via combinada), na operação de Jatene, para
manter a proteção do miocárdio enquanto se realiza o
reimplante das artérias coronárias.
A cardioplegia sanguínea para as
crianças exige metodologia própria em virtude dos
pequenos volumes e fluxos utilizados, além da
necessidade de minimizar os riscos da oferta excessiva de
potássio.
METODOLOGIA GERAL DA
CARDIOPLEGIA SANGUÍNEA
A essência da cardioplegia sanguínea
é a mistura de uma solução cristaloide especial
(solução mãe) com o perfusato do oxigenador, em uma
proporção pré-estabelecida, para assegurar a
composição química e as propriedades da solução
final desejada.
| MISTURA
PARA A CARDIOPLEGIA SANGUÍNEA (1:4) |
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Perfusato
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| Os
circuitos para a administração da cardioplegia
são construidos para fornecer a mistura desejada
(1:4). |
COMPOSIÇÃO
E PREPARO DA SOLUÇÃO CRISTALOIDE (POTÁSSIO) P/ MISTURA
AO PERFUSATO
A composição do componente
cristaloide varia conforme a idade das crianças e a
variedade de cardioplegia.
NOTA: As soluções são
preparadas de acordo com a idade porque há evidências
de que o miocárdio dos neonatos e lactentes é melhor
protegido por soluções com conteudo normal de cálcio.
As soluções contendo o ACD como o agente quelante são
indicadas para as crianças maiores.
NEONATOS E CRIANÇAS
ATÉ 3 ANOS DE IDADE
| Tipo |
S. Glicosado
|
Kcl 10%
|
NaHCO3
|
Glutamato
|
Aspartato
|
| Indução
Gelada |
460 ml.
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30 ml.
|
10 ml.
|
-
|
-
|
| Manutenção
Gelada |
480 ml.
|
10 ml.
|
10 ml.
|
-
|
-
|
| Indução
Morna |
400 ml.
|
30 ml.
|
10 ml.
|
30 ml.
|
30 ml.
|
| Reperfusão
Morna |
410 ml.
|
15 ml.
|
15 ml.
|
30 ml.
|
30 ml.
|
| 1. O
glutamato e o aspartato são adicionados apenas
para a indução ou a reperfusão mornas. 2. O miocárdio neonatal é melhor
protegido por soluções com teor de cálcio
normal; portanto, não adicionamos o CPD.
3. As soluções usadas de
rotina são as geladas. As soluções mornas são
reservadas a casos especiais e serão
solicitadas, quando necessário.
|
CRIANÇAS
ACIMA DE 3 ANOS DE IDADE
| Tipo |
S. Glicosado
|
Kcl 10%
|
NaHCO3
|
Glutamato
|
Aspartato
|
CPD
|
| Indução
Gelada |
430 ml.
|
30 ml.
|
10 ml.
|
-
|
-
|
30 ml.
|
| Manutenção
Gelada |
450 ml.
|
10 ml.
|
10 ml.
|
-
|
-
|
30 ml.
|
| Indução
Morna |
370 ml.
|
30 ml.
|
10 ml.
|
30 ml.
|
30 ml.
|
30 ml.
|
| Reperfusão
Morna |
380 ml.
|
15 ml.
|
15 ml.
|
30 ml.
|
30 ml.
|
30 ml.
|
| 1. O
glutamato e o aspartato são adicionados apenas
para a indução e a reperfusão mornas. 2. O miocárdio das crianças acima de 3
anos é melhor protegido por soluções com baixo
teor de cálcio; portanto devemos adicionar o CPD
para a cardioplegia dessas crianças.
3. As soluções usadas de
rotina são as geladas. As soluções mornas são
reservadas a casos especiais e serão
solicitadas, quando necessário.
|
NOTA: As soluções de
Glutamato e Aspartato para a cardioplegia sanguínea são
comercializadas prontas para o uso e tem a concentração
de 1 mmol/ml.
PREPARO DA
CARDIOPLEGIA SANGUÍNEA PARA ADMINISTRAÇÃO
Usamos para a cardioplegia sanguínea
infantil, os mesmos reservatórios e circuitos existentes
no mercado para a cardioplegia de adultos.
A solução final é administrada na
razão de 4:1, ou seja, quatro partes de perfusato para
cada parte da solução cristaloide. Os circuitos
próprios para a administração da cardioplegia já são
dimensionados para fornecer a relação 4:1, de acordo
com o calibre do tubos usados na bomba de cardioplegia.
Para os neonatos, em que os volumes
são muito pequenos, é preferível coletar a solução
em uma seringa de 100 ml. e fazer a administração
manual na raiz da aorta.
TEMPERATURAS DA
SOLUÇÃO CARDIOPLÉGICA
Técnica
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Temperaturas
|
- Indução e manutenção
geladas
|
Solução final entre 4 e
100C
|
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Indução e reperfusão
mornas
|
Solução final entre 34 e
370C
|
| Na
cardioplegia hipotérmica objetivamos reduzir a
temperatura do miocárdio para um valor entre 12
e 180C. |
DOSES
DA CARDIOPLEGIA SANGUÍNEA
A dose habitual para a indução é de
aproximadamente 30 ml/Kg de peso, infundidos durante
aproximadamente 3 minutos. A pressão da infusão deve
ser baixa, em torno de 40 mmHg.
A cardioplegia deve ser repetida a cada
15 ou 20 minutos, na dose de 20 ml/Kg de peso, infundidas
em um intervalo de aproximadamente 1 a 2 minutos.
Ocasionalmente doses maiores podem ser necessárias.
Complementar a proteção com a
irrigação periódica do coração com soro gelado
(hipotermia tópica). Não colocar gelo (ice slush)
diretamente no saco pericárdico, para evitar paralisia
frênica.
CARDIOPLEGIA SANGUÍNEA - DOSES
|
| Dose
de Indução |
30
ml/Kg |
| Dose
de Manutenção (15 a 20 min.) |
20
ml/Kg |
| Manter
a hipotermia com soro gelado (Ringer) no saco
pericárdico. Evitar colocar gelo. |
MONITORIZAÇÃO
DA CARDIOPLEGIA SANGUÍNEA
| Parâmetros |
Objetivos - Valores Aceitos
|
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Abaixo de 150 mmHg (linha)
|
|
Pressão na raiz da aorta
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Abaixo de 40 mmHg
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Temperatura do miocárdio
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Entre 12 e 180C
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Fluxo de infusão
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Lento p/ melhor
distribuição
|
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Duração da infusão
inicial
|
Acima de 3 minutos
|
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Duração da infusão
adicional
|
Acima de 2 minutos
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TÉCNICA
DE ADMINISTRAÇÃO
| ADMINISTRAÇÃO P/ NEONATOS
|

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A
linha de Cardioplegia vai
ao campo operatório onde é conectada à uma
torneira de 3 vias. A solução cardioplégia é
aspirada para a seringa de 100 ml. e manualmente
injetada na raiz da aorta. O método permite o
melhor controle do volume injetado, da pressão e
do tempo (fluxo) da infusão. É um método bastante preciso e útil para administrar a cardioplegia aos neonatos.
Na prática, contudo, não desfruta de muita popularidade. Seu uso é restrito à um pequeno número de equipes. Entretanto, em nossa experiência pessoal, oferece muito boas condições de administração.
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CARDIOPLEGIA SANGUÍNEA PARA ADULTOS
Praticamente todas as considerações feitas em relação à cardioplegia sanguínea pediátrica tem aplicação na cardioplegia sanguínea para os pacientes adultos. Vamos descrever a modalidade convencional da cardioplegia sanguínea empregada para adultos.
Q cardioplegia sanguínea consiste de perfusato modificado pela adição de eletrólitos, aminoácidos, bicarbonato de sódio e um agente quelante destinado a reduzir o teor de cálcio.
A cardioplegia habitualmente usada consiste da mistura de 4 partes de perfusato com 1 parte de solução cirstaloide, previamente preparada. O componente cristaloide é a solução mãe e existe em duas formas, uma para a indução e outra para a manutenção da parada diastólica do coração. A principal diferença entre essas duas soluções é a concentração dos agentes indutores da parada cardíaca, potássio e magnésio.
A tabela abaixo ilustra a composição das soluções mãe mais utilizadas em nosso meio, comercializadas pela empresa Brale Biomédica S.A.
SOLUÇÃO MÃE DE INDUÇÃO
| Componente Adicionado | Componente Sanguíneo modificado | Volume (ml) | Concentração final diluída 1:4 com sangue |
| S. Glicosado 5% | Osm. substrato | 390 | 340 - 360 mOsm |
| ACD | < Ca | 30 | 0,5 - 0,6 mM/l |
| Cloreto de potássio 19,1% | K+ | 20 | 22 - 24 mEq/l |
| Bicarbonato sódio 8,4% | pH | 8 | 7,5 - 7,6 |
| Sulfato de magnésio 10% | Mg++ | 10 | 4,4 - 5,2 |
| Insulina simples | substrato | 10 U.I. | 2,0 U.I./l |
| Papaverina | Ca++ | 40 mg | 8 mg/l |
| Glutamato de sódio | substrato | 40 | 12 mmol/l |
| Aspartato de sódio | substrato | 40 | 12 mmol/l |
| Relaciona os componentes adicionados, o resultado no sangue modificado e a concentração final da solução cardioplégica pronta para uso. O ACD é usado para reduzir o teor de cálcio do sangue, a insulina promove a entrada de glicose nas células e a papaverina é o agente vasodilatador. |
SOLUÇÃO MÃE DE MANUTENÇÃO E REPERFUSÃO
| Componente Adicionado | Componente Sanguíneo modificado | Volume (ml) | Concentração final diluída 1:4 com sangue |
| S. Glicosado 5% | Osm. substrato | 440 | 340 - 360 mOsm |
| ACD | < Ca | 30 | 0,5 - 0,6 mM/l |
| Cloreto de potássio 19,1% | K+ | 6 | 8 - 10 mEq/l |
| Bicarbonato sódio 8,4% | pH | 15 | 7,3 - 7,4 |
| Sulfato de magnésio 10% | Mg++ | 10 | 4,4 - 5,2 |
| Glutamato de sódio | substrato | 30 | 12 mmol/l |
| Aspartato de sódio | substrato | 30 | 12 mmol/l |
A cardioplegia sanguínea pode ser administrada por via anterógrada, retrógrada ou por uma combinação dessas duas vias.
A cardioplegia sanguínea é administrada com controle dos fluxos de infusão, da pressão da raiz da aorta e pelo tempo de infusão. A indução, em geral, é feita com fluxos de cerca de 300 ml/min. As doses de manutenção são administradas com fluxos que variam de 50 a 150 ml/min. O tempo de infusão é de cerca de 3 minutos para a indução e 2 minutos para cada dose de manutenção.
Há muitas variações no que se refere à cardioplegia, desde a composição até as doses e o tempo de duração de cada administração. As equipes que usam grandes volumes de cardioplegia adicionam a ultrafiltração ao circuito da CEC, para evitar hemodiluição excessiva.
As demais modalidades de cardioplegia sanguínea serão tratadas em separado.

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